Oniro, oniros e o sonhar

Seção: mitologia grega690 palavras

Os oniros são, coletivamente, personificações dos sonhos; Oniro é o deus-sonho.

Filhos de Nix e irmãos de Hipno e Tânato, os oniros (gr. ὄνειροι) são os sonhos enviados individualmente pelos deuses, em geral sob a forma de pessoas conhecidas; suas mensagens podem ser proféticas e tanto verdadeiras quanto falsas, enganadoras.

iMorfeu visita Alcione

Os sonhos vivem em local situado no extremo oeste, às margens de Oceano, perto do lugar onde ficam as almas dos mortos. Para chegar à cabeceira dos mortais adormecidos eles atravessam dois portões: através de um passam os sonhos que se cumprem e, através do outro, os sonhos enganadores, com promessas que não se cumprem. Devido à localização e ao trajeto, são muitas vezes associados ao hades e à própria terra.

Safo (F 63) se dirige especificamente a Oniro (gr. Ὄνειρος), “o doce deus”, mas essa não é a regra; usualmente os sonhos são mencionados de forma coletiva. Não há informações sistemáticas nos texto antigos sobre aspectos físicos dos sonhos, mas às vezes eles são assustadores e têm asas negras. Nos poetas trágicos, seu conteúdo é profético, sempre relevante e reflete algumas partes do enredo.

Não há cultos específicos dedicados ao sonhar ou aos sonhos. Eles têm, no entanto, grande importância nos templos da cura, onde o deus Asclépio e o herói Anfiarau se valem dos sonhos para revelar aos fiéis o tratamento de seus males.

iO sonho terapêutico

Pausânias menciona a existência de uma estátua do deus ‘Sonho’ (Oniro) no templo de Asclépio em Atenas e Filóstrato descreveu uma pintura em Oropo na qual ele usa uma veste branca sobre uma negra, talvez representando os sonhos diurnos e noturnos.

A individualização sistemática do sonho em única e específica divindade é provavelmente criação de Ovídio, talvez por influência helenística. Ao contar o mito de Alcione e Céix, o poeta relata que Morfeu (lat. Morpheus), o “moldador”, assume a forma de seres humanos conhecidos e desconhecidos nos sonhos; Ícelo (ou Fobetor), a dos animais; e Fântaso, a das outras coisas. Eles fazem parte dos mil filhos de Somnus, o sono, que dormem à volta do pai em caverna escura e silenciosa.

Ilíada 2.6-36; Odisseia 4.795-840, 6.13-47, 19.559-67, 24.11-14; Hesíodo, Teogonia 211-3; ΣA Álcman F 1.49; Safo F 63; Eurípides, Hécuba 70-71; Aristófanes, Rãs 1331-7 e Pluto 634-746; Ovídio, Metamorfoses 11.633-47; Pausânias 2.10.2; Filóstrato, o Velho, Imagens 1.27.

variantes

Para [Higino] (Histórias, prefácio 1) e Cícero (Da natureza dos deuses 3. 17), os sonhos (lat. somnia) são filhos de Érebo e Nix; para Álcman (F 1.49) e Eurípides (Hécuba 70-71, Ifigênia em Táuris 1259-82), são filhos ou enviados da Terra. Virgílio (Eneida 6.282-3) situa os sonhos no vestíbulo do mundo dos mortos. O autor da Vida de Esopo (G 33) atribuiu a origem de sonhos verdadeiros e falsos a Zeus.

A descrição de sonhos é recurso literário dos mais utilizados desde a época dos poemas homéricos, tanto pelos poetas quanto pelos prosadores (e.g. Heródoto e Flávio Josefo); sua associação a enganos e profecias remonta à Ilíada. Os poetas trágicos (e.g. Ésquilo, Coéforas 523-50) recorrem a sonhos proféticos com certa frequência.

Safo se dirige ao deus do sonho, no singular, em um de seus poemas (F 63) e o hino órfico 86 é dedicado especificamente a Oniro “de amplas asas”.

Em praticamente todos os autores a interpretação dos sonhos, divindadas enviadas pelos deuses, tem grande importância. Em Prometeu Acorrentado 484-7, [Ésquilo] atribui a Prometeu a “onirocrítica”, arte de interpretar o conteúdo profético dos sonhos. No Período greco-romano, a interpretação dos sonhos assumiu feição literária com a obra de Artemidoro (sæc. II), Da interpretação dos sonhos.

Da Idade Média em diante, Morfeu tem sido considerado o deus do sonho e do sono. A “morfina”, poderoso analgésico indutor do sono, foi descoberta em 1804 e recebeu o nome por causa dele; é comum a expressão “cair nos braços de Morfeu”, i.e. dormir. Os artistas neoclássicos (e.g. Jean-Antoine Houdon, 1771) representaram-no algumas vezes em pinturas e esculturas.

O adjetivo português “onírico” e alguns substantivos compostos utilizam o mesmo radical dos substantivos temáticos gregos  Ὄνειρος, ‘o deus sonho’ e ὄνειρον, ‘um sonho’.