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Eros: a atração amorosa

Seção: mitologia grega1200 palavras
em Roma: Cupido
 
Eros com asas
Ἔρως ἀνίκατε μάχαν,
Ἔρως, ὃς ἐν κτήμασι πίπ-
τεις, (...)
καί σ' οὔτ' ἀθανάτων
φύξιμος οὐδεὶς οὔθ'
ἁμερίων ἐπ' ἀνθρώ-
πων, ὁ δ' ἔχων μέμηνεν.

Eros, invencível no combate;
Eros, tu que riquezas conso-
mes, (...)
De ti nenhum dos imortais
é capaz de fugir,
nenhum dos homens que só duram
um dia. Quem te possui enlouquece.

Divindade muito antiga, personificação do impulso vital amoroso que compele deuses e homens a se unir e gerar descendência.

Origens

Na época da criação, Eros (gr. Ἔρως) surgiu depois de Gaia, provocou a união entre Érebo e Nix e, mais tarde, entre Gaia e Urano, os quatro ancestrais primevos de quase todas divindades gregas.

Mais tarde acompanhou Afrodite, a deusa do desejo amoroso, quando ela se juntou aos outros deuses.

Em algum momento, provavelmente entre a época de Hesíodo e a de Simônides, Eros começou a ser considerado filho de Afrodite e de Ares, versão mais difundida sobre sua origem.

Associado a Afrodite, personificava todos os sentimentos ligados ao amor e ao desejo, inclusive a paixão física e a atração homossexual. Seu poder afetava o coração (Ilíada 3.442-4; Safo 47; Álcman 59) e fazia as pernas tremerem (Odisseia 18.212-3; Safo 130). Dentre os deuses, somente Héstia, Atena e Ártemis resistiam a ele.

iEros, arco e flecha

As tentações de Eros e seu comportamento “travesso”, reiterados constantemente em diversos mitos, surgiram mais ou menos na época de Anacreonte. O primeiro a mencionar o arco e as flechas do deus foi Eurípides, em meados do Período Clássico.

Nas primeiras décadas do século -V os artistas já representavam múltiplos Eros (pl. ἔρωτες, “erotes”), talvez porque imaginassem a existência de mais de um impulso amoroso. Douris parece ter sido o primeiro a fazê-lo.

Na versão mais corrente de sua lenda, moldada principalmente durante o Período Helenístico, ele é um menino travesso e caprichoso, dotado de asas e armado de arco e flecha. Impiedoso e irresistível, Eros atira setas que têm a propriedade de deixar o coração de mortais e imortais completamente inflamados de amor. Nessa versão, é o mais jovem dos deuses, não uma das divindades primordiais.

Hesíodo, Teogonia 116-133, 201; Anacreonte F 358; Simônides F 575; Eurípides, Medeia 530-1 e Ifigênia em Áulis 543-51; IG I3 1382ab; Platão, Fedro 252b; Banquete 177a-d e passim; Apolônio de Rodes 3.85-166 e 275-90; Ovídio, Metamorfoses 1.452-76; Pausânias 1.30.1, 6.23.3 e 9.27.1-5; Ateneu 13.561f e 13.609d; Plutarco, Vida de Sólon 1.4. Arte: Atenas 15375, Cleveland 1966.114.

variantes

Para Aristófanes (Aves 695-7), Eros nasceu de um ovo de vento gerado por Nix e Érebo. Essa concepção órfica também está presente nas Teogonias rapsódicas (F 121-6): Eros é identificado com a divindade órfica Fanes, filho de Éter, procedente do ovo cósmico, que tem os dois sexos (F 143).

Safo (F 198) considera Eros filhos de Gaia e Urano; Alceu (F 327), de Íris e Zéfiro; Olen da Lícia (Pausânias 9.27.2-3), de Ilítia; Platão (Banquete 203a-204a), de Poros, o expediente, e Penia, a pobreza, no banquete que comemorou o nascimento de Afrodite.

Iconografia

iAfrodite, Eros e Pã

As atividades cosmogônicas de Eros nunca foram representadas na Arte. Do Período Arcaico em diante, ele se tornou símbolo do amor e das relações amorosas e aparece nas cenas de vasos como adolescente ou homem jovem, quase sempre alado, às vezes na companhia de Afrodite. Isoladamente, aparece em casamentos e quartos femininos e também em competições atléticas.

Em Téspias havia esculturas de Eros feitas por Praxíteles e Lisipo e, em Mégara, uma de Escopas; todas se perderam. Ele também foi pintado por Zêuxis e Pausias.

Sua presença frequentemente marcava algum tipo de relacionamento amoroso entre as outras figuras. Do Período Clássico em diante, Eros e Erotes progressivamente se tornaram crianças pequenas, rechonchudas, simpáticas e dotadas de asas, onipresentes em cenas nas quais atos amorosos eram evidentes ou implícitos.

Em obras de arte romanas, da Idade Média e do Renascimento, notadamente, os erotes serviam de metáfora para relações sexuais que o artista não queria (ou não podia) representar abertamente.

Os mitos de Eros

Depois da criação do Universo e apesar de ser “o mais belo dentre os deuses imortais” (Hesíodo, Teogonia 120), Eros participa de poucos mitos.

Com ou sem Afrodite, ele tem pequenas participações nas narrativas míticas. Na Argonáutica, por exemplo, Afrodite lhe pede que faça Medeia se apaixonar por Jasão.

A única lenda de que participa mais extensamente é a de Psiquê, muito popular do Período Greco-Romano em diante.

Anteros

Anteros (gr. Ἀντέρως), divindade que representa o amor correspondido ou o punidor daqueles que não correspondem aos sentimentos amorosos. Em geral, consideravam-no filho de Afrodite e Ares.

Um dos Erotes, fisicamente muito semelhante a Eros, era comumente representado ao seu lado ou, às vezes, em oposição a ele.

iAfrodite pesa dois erotes

Platão, Fedro 255d; Pausânias 1.30.1; Eliano, Da natureza dos Animais 14.28; Ovídio, Fastos 4.1-2.

É tentador imaginar que, em quatro cenas nas quais Afrodite pesa dois Erotes (as erotostasias), um deles é Eros e o outro, Anteros — isso é, contudo, só especulação.

Cultos

Segundo Platão, Eros não inspirou hinos religiosos até sua época, o século -IV, talvez por não existir ainda culto significativo dedicado a ele.

Posteriormente, Eros passou a ser cultuado em Téspias (Beócia) na forma de uma pedra, talvez vestígio de sua função cosmogônica. Um grande festival denominado Erotidia era celebrado a cada cinco anos, com provas atléticas, equestres e competição de arte.

Em Atenas ele foi cultuado mais discretamente, juntamente com Afrodite; símbolos fálicos encontrados em santuário ao norte da acrópole sugerem rituais de fertilidade. Festival dedicado a Eros, talvez juntamente com Afrodite, ocorria todos os anos.

Espartanos e cretenses ofereciam sacríficios a Eros antes das batalhas; o bando sagrado tebano era consagrado a ele.

Havia estátuas dele nos ginásios e templos de Afrodite em diversas póleis e, muitas vezes, altares em sua honra. Em Atenas, pelo menos, havia um altar dedicado a Anteros.

Recepção

Eros era frequentemente mencionado pelos poetas de forma vívida, quase sempre quando o tema envolvia questões amorosas. Sófocles dedicou-lhe um hino (Antígona 781-90: ver epígrafe) e Eurípides, uma espécie de “anti-hino” em Hipólito (538-44). Eurípides também mencionou sua presença no início dos tempos (Hipsípile F 758a, vv. 1103-8).

O amor foi longamente discutido do ponto de vista filosófico por Platão nos diálogos Fedro e Banquete.

iEros curva o arco

Luciano, no seu Diálogo dos deuses, apresenta bem-humoradamente as travessuras de Eros entre os próprios deuses, citando particularmente Zeus, Selene e a própria Afrodite.

Um imitador de Luciano escreveu c. 300 um breve diálogo sobre o amor, Amores (gr. Ἔρωτες), no qual contrapõe o Eros cosmogônico ao Eros de Afrodite. Dois hinos “órficos” (nº 6 e nº 58), criados entre os séculos I e III, se inspiraram nesses dois aspectos de Eros.

Os artistas romanos e renascentistas pintaram, esculpiram e modelaram Eros e Erotes em incontáveis obras e, ocasionalmente, Anteros. Os pequenos e rechonchudos “erotes” se tornaram motivo ornamental corriqueiro, o putto, ‘menino’ (pl. putti).

Em 1892/1893 uma representação art nouveau em bronze de Anteros, o Shaftesbury Memorial, foi colocada no Piccadily Circus de Londres.

Em 1898, o nome “Eros” foi dado a um grande asteroide, o 433 Eros, um dos poucos cuja órbita passa perto da Terra.

Ilustrações adicionais