Cratino

Seção: literatura grega
Κρατῖνος Cratinus Comicus Cratin.
iiniPéricles (-495/-429)

O ateniense Cratino (gr. Κρατῖνος) era um dos três grandes mestres da "Comédia Antiga" ateniense, e bem mais velho do que Êupolis e Aristófanes, esse último um de seus maiores rivais.

Biografia

De sua vida pessoal sabemos apenas que foi taxiarca[1], que o nome de seu pai era Calimedes e que em seus últimos anos era dado a bebedeiras. Só conhecemos esse último fato, no entanto, a partir das comédias de Aristófanes e de outros poetas cômicos rivais, e por isso é provável que se trate apenas de uma anedota sem fundamento histórico (Heath, 1990, p. 149).

Venceu os concursos cômicos em nove ocasiões, seis vezes nas Dionísias Urbanas e três vezes nas Leneias. Suas únicas datas bem conhecidas se referem a duas vitórias nas Dionísias Urbanas, uma por volta de -440 e outra em -423, e a um segundo lugar nas Leneias de -424. Cratino faleceu entre -423 e -419, em idade bastante avançada.

Fontes: IG II2 2325. Ar. Ach. 848, Eq. 526-36, Pax 700-1. Luc. Macr. 25. Suda, s.v. gr. Κρατῖνος.

Características

Seu estilo era um tanto rude e abusado, e os cantos corais de suas comédias eram particularmente apreciados. Vários trechos musicais se tornaram canções populares (v.g. Doro das sandálias de sicofanta e Artífices de hinos bem modelados, Ar. Eq. 529-30).

Ele foi também o primeiro a utilizar ásperas sátiras pessoais em suas comédias (Ath. 268d) dirigidas aos políticos do momento, notadamente Péricles (c. -495/-429), aos outros poetas cômicos e aos sofistas. As vítimas de suas sátiras eram muitas vezes mencionados com seus próprios nomes (ver Plu. Per. 3 e McGlew, 2002). Em sua obra estavam já presentes, igualmente, paródias de mitos e temas fabulosos, e o frequente recurso ao burlesco.

Obras

Conhecemos o título de 28 de suas comédias, mas temos noção sobre a data de algumas. As mais conhecidas são Nêmesis (c. -431), Arquíloco, Quírones, Panoptas, Dioniso representando Alexandre (c. -429), Odisseu, As Delíades (c. -425), As Trácias e Os Plutos. De todas as comédias restam-nos pouco mais de 500 fragmentos de pequena extensão. Graças a eles e aos comentadores antigos, no entanto, sabemos um pouco sobre elas.

Em Nêmesis, que abordava a união de Zeus e Nêmesis, da qual teria nascido Helena, Péricles era mostrado como o instigador da Guerra do Peloponeso. Em Quírones (sg. Quíron), o coro de sábios centauros denunciava a corrupção da época de Péricles e, no Dioniso representando Alexandre (que conhecemos graças a uma hipótese parcialmente conservada no P. Oxy. 663), Dioniso se disfarça de Páris / Alexandre para ficar com Helena, depois do "julgamento de Páris", mas foge de Troia quando as coisas começam a se complicar. Nessa comédia, que parece ter tido uma parábase, Péricles e sua companheira Aspásia foram mais uma vez duramente criticados.

Cratino também atacou os sofistas em Panoptas, os cultos estrangeiros em As Trácias e recordou com saudade os grandes poetas do passado em Arquílocos. Os Plutos, de caráter fabuloso, tratava, aparentemente, de riquezas lícitas e ilícitas, e Os Odisseus era uma paródia do episódio homérico de Odisseu contra Polifemo.

Conta-se (Sch. Ar. Eq. 528) que, provocado por Aristófanes em relação ao seu amor pelo vinho, Cratino compôs a comédia Πυτίνη, A Jarra de Vinho. Cratino representou a si mesmo, na comédia, como um poeta cômico casado com uma mulher chamada "Comédia", a quem negligenciava. A esposa o acusa de negligência, infidelidade e maus tratos diante do arconte e exige que o casamento seja desfeito, mas "Cratino" reconhece sua culpa, muda de atitude e se reconcilia com a esposa. Com essa última obra, Cratino ganhou o primeiro prêmio do concurso de -423, vencendo o próprio Aristófanes...

Passagens selecionadas

Edições e traduções

Os fragmentos de Cratino e a doxografia sobre suas obras foram reunidos por Runkel (Leipzig, 1827, infra), Meineke (Berlim, 1847), Kock (Leipzg, 1880), Pieters (Leiden, 1946) e Edmonds (1957), entre outros. Atualmente, utiliza-se o volume IV da edição de Kassel e Austin, Poetae Comici Graeci (Berlim, 1983).

Em português, dispomos apenas de dois ou três fragmentos traduzidos por Maria de Fátima Sousa e Silva (Lisboa, 1997).