Sísifo

Seção: mitologia grega910 palavras
Σίσυφος Sísifo
ἔστι πόλις Ἐφύρη μυχῶι Ἄργεος ἱπποβότοιο,
ἔνθα δὲ Σίσυφος ἔσκεν, ὃ κέρδιστος γένετ' ἀνδρῶν.

Há uma cidade, Éfira, no meio da Argos apascentadora de cavalos;
lá viveu Sísifo, o mais ardiloso dos homens.

iiniÁjax, Sísifo e a pedra

Sísifo, mítico fundador de Éfira (antigo nome da cidade de Corinto), foi o mais astuto dos mortais,

A parte mais importante de seu mito se refere ao castigo infligido a ele pelos deuses.

Sísifo viu, acidentalmente, Zeus raptar Egina, filha do Rio Asopo, e delatou o raptor ao pai da moça em troca de uma nascente que Asopo fez brotar na cidadela de Corinto. A versão mais corrente diz que Zeus, encolerizado, imediatamente enviou Tânato, a morte, para buscá-lo, mas de algum modo Sísifo conseguiu enganar e prender Tânato. Como depois disso ninguém morria, Hades estrilou e Zeus precisou providenciar a libertação de Tânato. Livre, Tânato imediatamente apreendeu seu captor e Sísifo teve que baixar ao Hades.

O precavido Sísifo, no entanto, avisara a esposa Mérope para não prestar-lhe as usuais honras fúnebres, de modo que Hades, indignado, não podia recebê-lo no mundo subterrâneo. Sísifo desculpou-se humildemente com o deus e garantiu-lhe que, se pudesse voltar, puniria a “sacrílega” esposa por sua impiedade e resolveria o problema. O deus concordou, e o espertalhão voltou tranquilamente ao mundo da superfície e viveu até idade bastante avançada. Teve um filho, Glauco, pai do herói Belerofonte.

Algum tempo depois, o mais esperto e bem-sucedido ladrão da Grécia, Autólico, filho de Hermes e vizinho de Sísifo, tentou roubar-lhe o gado. As reses desapareciam sistematicamente sem que se encontrasse o menor sinal do ladrão, porém Sísifo ficou desconfiado porque o rebanho de Autólico aumentava à medida que o seu diminuía. Mas Sísifo era um homem letrado (foi, aparentemente, um dos primeiros gregos a dominar a escrita) e deu um jeito de marcar os cascos dos animais com sinais de modo que, à medida que o gado se afastava de seu curral, aparecia no chão a frase “Autólico me roubou”...

Mas os dois acabaram se entendendo e ficaram amigos. Certas versões relatam que da união entre Sísifo e Anticleia, filha de Autólico, nasceu Odisseu, um dos principais heróis do Ciclo Troiano.

As pífias vitórias dos mortais contra os deuses, no entanto, duram pouco. Sísifo morreu de velhice e então voltou ao mundo subterrâneo pelas vias normais... e nunca mais saiu. Por precaução, os deuses o condenaram a uma tarefa contínua e eterna, que não lhe deixava tempo para descansar ou pensar em fugas: empurrar um pesado rochedo para o alto de um morro e, depois que a pedra rolava morro abaixo, empurrá-la de volta.

Uma das partes da lenda de Sísifo que não envolve nenhuma tramoia refere-se à instituição dos jogos ístmicos em homenagem ao seu falecido sobrinho Melicertes, filho de Átamas (Pausânias 2.1.3-4).

A genealogia de Sísifo é mencionada na Ilíada (6.152-5) e seu castigo é descrito na Odisseia (11.593-600); Teógnis (703-4) afirma que ele conseguiu escapar do hades convencendo Perséfone. Outras partes da lenda são contadas, entre outros, por Ferécides de Atenas (ver Escoliasta Il. 6.153), Polieno (6.52.1), Pseudo-Apolodoro (1.9.3), Pausânias (2.1.3 e 2.5.1) e pela Suda.

Iconografia

Sísifo usualmente é representado depois sua punição, segurando ou empurrando a pedra.

iSísifo e a pedra

Na segunda metade do século -VI, o castigo de Sísifo foi representado em alguns vasos de figuras negras [Ilum. 0884] e, no século -V, de figuras vermelhas. Em vaso apuliano do final do século seguinte (ao lado), ele é mostrado empurrando a pedra, açoitado por uma harpia. Métopa mais antiga (c. -540) do heraion de Foce del Sele, Magna Graecia, já mostra Sísifo acossado por uma figura alada, empurrando sua pedra.

Sabe-se que Polignoto (fl. -480/-450) pintou o castigo de Sísifo em uma das áreas da extensa pintura que recobria as paredes de um edifício de Delfos (Pausânias 10.31.10), mas nenhuma parte dessa pintura alcançou nossos dias.

Recepção

No século -V, Ésquilo, Sófocles, Eurípides e Crítias escreveram tragédias ou dramas satíricos baseados no mito de Sísifo; nenhum deles chegou até nós, assim como as comédias dos pouco conhecidos Apolodoro (sæc. -IV/-III), poeta grego, e Lucius Pomponius (fl. c. -90), poeta romano. Eurípides, particularmente, se inspirou nos episódios que envolveram Sísifo e Autólico nos dramas satíricos Autólico A e Autólico B, e em episódio mítico ainda não esclarecido no drama satírico Sísifo.

O diálogo filosófico Sísifo, durante muito tempo atribuído a Platão[1], nada tem a ver com o Sísifo lendário, apesar do título.

Dentre as obras musicais modernas, cito Sisyphus, King of Ephyra, libreto de ópera de Frederick e Henrietta Corder (1882); Sisyphus: An Operatic Fable, de Robert Trevelyan (1908).

Há vários poemas curtos, entre eles os de A. Rabbe (1924), Robert Garioch (1971?), Miguel Torga (1978), U.A. Fanthorpe (1982), Gary J. Whitehead (1997) e Stephen Dunn (2003). O texto mais célebre e mais conhecido é, no entanto, o ensaio filosófico de Albert Camus, Le Mythe de Sisyphe (1942).

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Fig. 0277

Nos últimos séculos, numerosas gravuras, pinturas, esculturas e até caricaturas e ícones para uso em computadores (Fig. 0277) evocam Sísifo e sua pedra como epítome de trabalhos árduos, contínuos e infrutíferos que devem ou precisam ser realizados.

São particularmente notáveis as pinturas de Ticiano (1548-1549), de Jusepe de Ribera (sæc. XVII) e de Franz Von Stuck [Ilum. 0238].