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1070 palavras

Eliano / Da natureza dos animais

 
Animais reais e fantásticos

O título Περὶ ζῴων ἰδιότητος, tradicionalmente traduzido por Da natureza dos animais, refere-se mais precisamente às ‘peculiaridades’ (gr. sg. ἰδιότης) dos animais. Há descrições de aves, animais terrestres, peixes, seres imaginários, animais desconhecidos (ou ainda não identificados) e até de plantas.

A miscelânea tem aproximadamente 800 historietas curtas, muitas delas exóticas, compiladas e recontadas por Eliano em estilo simples e elegante. Típico autor paradoxográfico[1], Eliano reuniu mais curiosidades, fatos pitorescos, superstições, crenças e fantasias do que dados e informações que hoje chamaríamos de “científicas”.

Corça em movimento

Algumas das historinhas evocam modernos contos de fadas e boa parte delas tem nítido tom moralizante; em geral, virtudes naturais do mundo animal são favoravelmente comparadas ao egoísmo, à loucura e aos defeitos dos seres humanos. Qualidades estoicas como autocontrole diante da adversidade e desapego a bens e riquezas são particularmente valorizadas.

O autor dispôs as histórias em sequência, independentemente do tema, como nas antigas coletâneas de fábulas. Se havia algum critério na organização dos textos, ele desafia a mente moderna[2].

O texto se baseia em passagens de Aristóteles, Teofrasto, Plutarco, Nicandro, Plínio (o Velho), Eudoxo e Ateneu, entre outros, em vários comentadores antigos e também em autores e compiladores obscuros dos quais praticamente nada sabemos. Muitas vezes reticente, Eliano tem o cuidado de mencionar a fonte das informações e às vezes afirma, virtuosamente, não acreditar na história que está repassando. Ocasionalmente, cita Homero e os poetas trágicos e cômicos (e.g. Ésquilo, Eurípides, Cratino) para ilustrar alguma afirmação.

Resumo

Originalmente, o texto ocupava 17 livros; na edição de Valdés, Fueyo e Guillén (2009) eles se distribuem em 432 páginas. Há um prólogo de 2 páginas, um epílogo de 4 páginas e, em média, 45 histórias em cada livro. Algumas ocupam apenas 2-3 linhas, outras mais de uma página.

Para dar ideia da variedade de temas abordados, listei o número de histórias e alguns exemplos representativos de cada livro. Não há títulos no texto original.

  1. 60 histórias, dentre elas “Nícias e seus cães” (1.8), “o efeito de certas plantas” (1.37) e “o acasalamento da moreia e da víbora” (1.50);
  2. 0206
    Fig. 0206. Basilisco.
  3. 57 histórias, dentre elas “os pescadores e os golfinhos” (2.8) e “o basilisco” (2.5 e 2.7);
  4. 47 histórias, dentre elas “a fidelidade conjugal dos corvos” (3.9) e “os unicórnios da Índia” (3.41);
  5. 60 histórias, dentre elas “a domesticação de elefantes” (4.24) e “os animais que sabem contar” (4.53)
  6. 56 histórias, dentre elas, “as cigarras de Régio e de Locri” (5.9);
  7. 65 histórias, dentre elas “os devotos ratos do Mar Negro” (6.40) e “a fênix” (6.58);
  8. 48 histórias, dentre elas “o macaco e o bebê” (7.21) e “Andrócles e o leão” (7.48);
  9. 28 histórias, dentre elas “os porcos e os piratas” (8.19) e “a cegonha e a bondosa viúva” (8.22);
  10. 66 histórias, dentre elas “o acônito e o heléboro branco” (9.27) e “os peixes voadores” (9.52);
  11. 50 histórias, dentre elas “os homens com cara de cão” (10.25);
  12. 40 histórias, dentre elas “Ápis, o boi sagrado dos egípcios” (11.10), “pequenas causas de grandes guerras” (11.27) e “aberrações da natureza” (11.40);
  13. Leão sentado
  14. 47 histórias, dentre elas “os corteses leões do Elam” (12.23)
  15. 28 histórias, dentre elas “os monstros do mar” (13.20);
  16. 29 histórias, dentre elas “a captura dos avestruzes” (14.7) e “o lago de água fervente” (14.19);
  17. 29 histórias, dentre elas “a luxúria das tartarugas” (15.9);
  18. 42 histórias, dentre elas “a inteligência das formigas indianas” (16.15) e “escorpiões com asas, lagartos e serpentes” (16.41);
  19. 46 histórias, dentre elas “a arraia e a música” (17.18) e “a gratidão da águia” (17.37).

Manuscritos, edições, traduções

Dispomos de mais ou menos 20 manuscritos, nem todos completos. Os mais importantes são o Laurentianus 86,7 (L), do século XII; o Parisinus gr. suppl. 352 (V), do século XIII; e o Parisinus gr. 1756 (P), do século XIV. O primeiro está na Biblioteca Medicea Laurenziana de Florença e os dois últimos, na Bibliotèque Nationale de France, Paris.

A editio princeps é a de Gesner (Zurique, 1556). As mais importantes edições modernas são a de Hercher (Didot, 1858) e a de Scholfield (Loeb, 1958); a edição padrão atual é a teubneriana de Valdés, Fueyo e Guillén (2009). Não há traduções para o português.

Recepção

As historietas de Eliano tiveram grande influência nos populares bestiários[3] medievais e são uma de suas mais importantes fontes. Romances medievais (e.g. Yvain ou le Chevalier au lion, 1176; Amadís de Gaula, 1508) também recorreram a alguns de seus temas.

O médico, filólogo e naturalista Conrad Gessner (1516-1565), autor da editio princeps, recorreu extensivamente a Eliano para sua monumental Historia animalium (Zurique, 1551-1558), obra que deu início à moderna zoologia.

Pelo menos uma das histórias desenvolveu vida própria. O conto folclórico “Andrócles e o leão” (ATU 156), por exemplo, remonta a Aulo Gélio (Noites Áticas 5.14) e a Eliano (7.48). Incorporado posteriormente às fábulas esópicas (= Perry 563) e à hagiografia medieval de São Jerônimo (Jacobus de Voragine, c. 1260), inspirou pinturas (Jean-Léon Gérôme, 1902) e outras obras de arte, poemas (Vincent Bourne, 1716–17), peças de teatro (George Bernard Shaw, 1912), filmes (1912, 1952, 1967) e uma ópera (Rob Englehart, 2010).

Notas

  1. Paradoxografia, do gr. παράδοξος, ‘contrário à expectiva, inacreditável’, é um gênero da literatura helenística e greco-romana que reúne fenômenos extraordinários ou inexplicáveis relatados por vários autores.
  2. Ao ler o texto de Eliano pela primeira vez, lembrei-me de Jorge Luis Borges. No conto O idioma analítico de John Wilkins (Otras Inquisiciones, Buenos Aires, Sur, 1952) ele descreve exdrúxulos sistemas de classificação e recorda: “essas ambiguidades, redundâncias e deficiências lembram aquelas que o doutor Franz Kuhn atribui a certa enciclopédia chinesa intitulada Empório Celestial de Conhecimentos Benévolos. Em suas remotas páginas consta que os animais se dividem em (a) pertencentes ao Imperador, (b) embalsamados, (c) amestrados, (d) leitões, (e) sereias, (f) fabulosos, (g) cães soltos, (h) incluídos nesta classificação, (i) que se agitam como loucos, (j) inumeráveis, (k) desenhados com um finíssimo pincel de pêlo de camelo, (l) etcétera, (m) que acabam de quebrar o vaso, (n) que de longe parecem moscas”.
  3. “Bestiários” são compêndios com descrição de animais reais e fantásticos, ricamente ilustrados e acompanhados às vezes de lições morais. Muito populares do século X em diante, suas ilustrações eram particularmente apreciadas e influenciaram as figuras heráldicas (desenhos de emblemas e brasões).

Referências

Manuela García Valdés, Luis Alfonso Llera Fueyo, Lucía Rodríguez-Noriega Guillén, Claudius Aelianus De natura animalium. Berlin / New York, De Gruyter, 2009.

Créditos das ilustrações

i0314Animais reais e fantásticos → Ver comentários.
i1322Corça correndo → Ver comentários.
i1327Leão sentado → Ver comentários.
f0206Rodrigo Ferrarezi, 2017. Fonte: Wikimedia Commons/ CC BY-SA 2.5.

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Artigo nº 1141, publicado em 21/02/2019.
Licença: CC BY-NC-ND 4.0
Como citar esta página:
RIBEIRO JR., W.A. Eliano / Da natureza dos animais. Portal Graecia Antiqua, São Carlos. URL: greciantiga.org/arquivo.asp?num=1141. Consulta: 07/12/2019.
 
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