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a principio ad anno domini 529

Novo Testamento / Apócrifos

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Papiro com o Evangelho de Tomás, sæc. III.

Os Apócrifos do Novo Testamento, também chamados de "evangelhos apócrifos", são uma coletânea de textos anônimos, escritos nos primeiros séculos do cristianismo (depois do século II, provavelmente), não reconhecidos pelo cristianismo ortodoxo e por isso não incluídos na Bíblia. A eles opõem-se, naturalmente, os textos "canônicos", i.e., oficialmente considerados "autênticos" e incluídos no Novo Testamento. A primeira separação entre os textos data de 325 e foi determinada pelo Primeiro Concílio de Nicéia, convocado pelo imperador romano Constantino I, que havia aderido ao cristianismo; a separação atual foi imposta pelo Concílio de Trento, convocado pelo Papa Paulo III, representante máximo da Igreja Católica, realizado de 1545 a 1563.

O termo "apócrifos" vem do grego ἀπόκρυφα e significa, justamente, "coisas escondidas". A partir do Concílio de Trento, a palavra "apócrifo" adquiriu conotação eminentemente negativa e se tornou sinônima de "espúrio" ou "falso" — e há, também, textos apócrifos do Velho Testamento, interessantes para os estudiosos da Bíblia, mas não para os estudiosos do grego antigo.

É notável, no entanto, que entre os diversos ramos do cristianismo há controvérsias a respeito de quais são, efetivamente, os textos apócrifos. A Igreja Ortodoxa da Etiópia, por exemplo, considera autêntico o Pastor de Hermas (sæc. II) e a Peshitta, bíblia da Igreja Siríaca, utilizada por muitas Igrejas da Síria, não inclui o Apocalipse de [João].

Textos principais

Os temas mais comuns dos apócrifos do Novo Testamento são os relatos dos primeiros anos e ensinamentos de Jesus Cristo (c. -7/30), além da descrição de episódios pouco conhecidos de sua vida, da vida de sua família e dos apóstolos. Alguns têm natureza doutrinária e tratam, entre outras coisas, da natureza de Deus ou constituem versões rivais dos evangelhos canônicos. Muitos foram escritos por autores pertencentes às diversas seitas gnósticas[1] em que se dividiu o cristianismo nos primeiros séculos de existência.

Eis uma pequena lista dos textos mais conhecidos:

Evangelhos sobre a infância de Jesus Proto-evangelho de Tiago[2], Evangelho da Infância de Tomás, Evangelho da infância do Pseudo-Mateus, História de José, o Carpinteiro, Vida de João Batista
Evangelhos alternativos Evangelhos de Marcion, Mani, Appelles, Bardesanes, Basilides, Cerinto e Tomás
Evangelhos sobre a paixão de Cristo[3] Evangelhos de Pedro, Nicodemo (= Atos de Pilares) e Bartolomeu e A Ressurreição de Jesus Cristo
Textos gnósticos o Livro secreto de Tiago, o Livro de Tomás, o Contendor, o Diálogo do Salvador, os Evangelhos de Judas, de Maria Madalena e de Felipe, o Evangelho da Verdade, O Apocalipse Gnóstico de Pedro, o Evangelho Secreto de João
Atos dos apóstolos Atos de André, Barnabé, João, dos Mártires, de Paulo, de Pedro, de Pedro e André, de Pedro e Paulo, de Felipe, de Tomás
Epístolas[4] Epístolas de Clemente, dos Coríntios a Paulo, de Ignácio aos esmirneus e aos trálios, de Policarpo aos felipenses, a Sêneca, o Jovem, e Terceira Epístola aos Coríntios
Apocalipses Apocalipse de Paulo, de Pedro, do Pseudo-Metódio, de Tomás, de Estevão, de Tiago (há 2 textos) e O Pastor, de Hermas
Diversos sobre o destino de Maria (há mais de 50 textos), Constituições Apostólicas, Cânones dos Apóstolos, Liturgia de São Tiago, Prece de Paulo, Ensinamento (possivelmente, o primeiro catecismo)

Manuscritos, edições, traduções

A tradição papirológica e manuscrita, como era de se esperar, é muito extensa e de qualidade irregular. Não há, ainda, uma edição única de todos os textos conhecidos; as mais completas e mais usadas pelos estudiosos são a de James (Oxford, 1924), a de Metzger (Oxford, 1987) e a de Schneemelcher (Westminster, 61989, 2 v.).

Em português, dispomos apenas de traduções de textos selecionados, reunidos em coletâneas parciais (ver infra, "Textos Recomendados"); a Editora Vozes, por outro lado, têm publicado alguns apócrifos de forma avulsa. Infelizmente, não tive ainda a oportunidade de verificar, nessas publicações, quais foram traduzidos diretamente do grego.

Notas

  1. Gnose, do gr. γνῶσις, "conhecimento, sabedoria" é um sistema de pensamento filosófico-religioso fundamentado em uma revelação superior e exclusiva que explica as coisas divinas. O gnosticismo caracterizou, entre outras, numerosas seitas cristãs dos séculos I/III. De forma geral, os membros associavam o mal às coisas materiais e o bem às coisas espirituais; o conhecimento era acessível apenas aos iniciados possuidores da gnose. Cada uma das seitas achava, é claro, que as outras estavam erradas...
  2. Nos textos em inglês, o nome é Protoevangelium of James. A relação entre os nomes "Tiago" e "James" é línguisticamente complexa e difícil de explicar, mas tem a ver com uma certa semelhança fonética entre os fonemas /j/ e /ti/ nas formas antigas do nome.
  3. A palavra paixão vem do grego πάθος e significa, basicamente, "sofrimento". Entre os cristãos, a expressão "paixão de Cristo" se refere aos relatos de seu apresamento, execução e ressurreição.
  4. Epístola vem do grego ἐπιστολή, "mensagem, carta".
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Leitura complementar    br   pt

L. Ramos, Fragmentos dos Evangelhos Apócrifos. Petrópolis, Vozes, 1989.

Maria H.O. Tricca (org.), Os Apócrifos da Bíblia, 4 v., São Paulo, Mercuryo, 1995/2001.

Luigi Moraldi, Os Evangelhos Apócrifos, São Paulo, Paulus, 1999.

Apócrifos e Pseudo-epígrafos da Bíblia, São Paulo, Fonte Ed., 2004.

Urbano Zilles, Evangelhos Apócrifos, Porto Alegre, EdiPUCRS, 22004.

Hans-Hosef Klauck, Evangelhos Apócrifos, trad. I.J. Rabuske, São Paulo, Loyola, 2007.

Referências e bibliografia
s consulte a bibliografia geral da área