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a principio ad anno domini 529

Introdução à Geografia, de Ptolomeu

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O mapa-múndi de Ptolomeu, 1482.

O tratado Γεωγραφικὴ ὑφήγησις , Introdução à Geografia, foi escrito provavelmente entre 150 e 170, algum tempo depois do Almagesto, e seria o que hoje chamaríamos de "atlas geográfico" comentado.

O texto da Geografia é um verdadeiro tratado de cartografia, pois parece inteiramente dirigido à confecção de mapas. O próprio autor, no Livro I, ensina como desenhá-los a partir de seus dados.

A enorme influência da Geografia de Ptolomeu durante a Idade Média, de certa forma, abriu o caminho para a descoberta do Novo Mundo. Graças aos pressupostos de que a Ásia se estendia muito mais para o leste, Cristóvão Colombo (1450/1506) acreditou que poderia atingí-la viajando para o oeste. Por outro lado, a crença de Ptolomeu na existência de um continente ao sul do Oceano Índico acabou sendo desmentida, mas somente em 1773, a partir da viagens de James Cook (1728/1779).

Resumo

O texto é bastante extenso e foi dividido pelo autor ou pela tradição manuscrita em oito volumes ou livros, que ocupam quase 900 páginas das edições de Nobbe (1843-1845) e Muller (1883), nas quais se baseia este breve resumo.

O Livro I expõe conceitos teóricos, discussões sobre a construção de um globo, a descrição de projeções para mapas e uma crítica de sua principal fonte, Marino de Tiro (70-130). No início do Livro II, Ptolomeu assinala quais os mapas vai fazer, apresenta os métodos que devem ser utilizados e fala a respeito da coleta de dados, das tabelas de coordenadas geográficas e seu uso na confecção dos mapas.

Os Livros II-VI e a parte inicial do Livro VII compreendem um catálogo completo de mais ou menos 8.000 localidades (cidades, montanhas, penínsulas, rios, etc.) com a latitude e a longitude em graus, assim distribuídas: Europa (II-III), África (IV) e Ásia (V-VI). Para algumas localidades, detalhes topográficos descritivos acompanham as coordenadas. A segunda parte do Livro VII contém a descrição de um mapa do mundo, com os oceanos e ilhas mais importantes. O Oceano Índico, para Ptolomeu, era o maior de todos, e o Oceano Atlântico nem é mencionado.

No Livro VIII, novas discussões sobre os princípios da cartografia e dos métodos matemáticos, geográficos e astronômicos envolvidos. Há também curtas legendas para os mapas: dez para a Europa, quatro para a África e doze para a Ásia, com as regiões mostradas em cada um, com as cidades e o nome dos povos mais importantes. Segue uma descrição da projeção de todo o hemisfério conhecido, com seu aspecto esférico, em um plano, e dos erros que devem ser evitados na confecção de mapas com regiões muito populosas.

As ilustrações

Nenhum dos manuscritos sobreviventes contém mapas, infelizmente; apenas as indicações e coordenadas necessárias para construí-los.

Há ainda muita controvérsia a respeito da presença ou não de mapas na versão original da Geografia, e também quanto à autoria dos mapas. Alguns trechos do Livro VIII sugerem que sim, e a maioria dos estudiosos está de acordo. Mas teriam sido os primeiros mapas desenhados pelo próprio Ptolomeu? Não há resposta, ainda, para essa questão.

Sabe-se que um mapa-múndi baseado na Geografia foi exibido em Autun, França, no fim do Período Greco-Romano; nenhum dos manuscritos que chegaram até nós, porém, tem os mapas originais. Todos os "mapas de Ptolomeu" que existem são reconstruções baseadas nas coordenadas e nas instruções fornecidas por Ptolomeu em seu tratado.

Em dois dos mais antigos manuscritos, o desenho dos mapas é expressamente atribuído, sem referência cronológica, a um tal Agatodemo de Alexandria, que teria seguido as instruções do tratado. Não sabemos se Agatodemo foi apenas o desenhista que ilustrou a Geografia para Ptolomeu, na época em que o texto foi escrito, ou se ele foi um estudioso posterior que confeccionou os mapas de acordo com o texto.

Manuscritos, edições, traduções

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Edição latina de 1535 da Geographia de Ptolomeu.

Há hoje cerca de 50 manuscritos disponíveis, o que reflete a popularidade da obra durante a Idade Média. Os mais antigos e importantes são o da Biblioteca Apostolica Vaticana e o Vatopedi Cod. 655, do mosteiro grego do Monte Athos, ambos datados do século XIII/XIV. O Vatopedi tem lindas imagens, criadas durante a Idade Média.

A Geografia era conhecida dos árabes pelo menos desde 870. No Ocidente, foi "redescoberta" em 1295 pelo monge bizantino Maximus Planudes (1260/1330) e, em 1533, Erasmo de Rotterdam (1466/1536) reeditou o texto grego e publicou-o em Basiléia.

Bem antes disso, porém, a primeira tradução para o latim foi efetuada pelo florentino Jacopo Angeli da Scarperia (1406/1409). A primeira edição impressa da versão latina, só com o texto, surgiu em 1475; a primeira edição ilustrada, com vinte e sete mapas, foi impressa em Roma pouco depois, em 1478. O Livro I foi traduzido da versão latina para o português por Pedro Nunes, cosmógrafo do Rei D. João III, em 1537.

No Brasil, existe um raro exemplar da tradução italiana de Ruscelli, datada de 1561 e efetuada a partir do texto grego da Geografia, na Biblioteca do Santuário do Caraça, em Minas Gerais; um dos 62 mapas da edição mostra uma das mais antigas representações do Brasil.

Selecta

  1. Prólogo do Livro II
Leitura complementar    br   pt

La Geographia di Claudio Tolomeo Alessandrino nuovamenti di Greco in italiano da Girolamo Ruscelli. Venetia, Vincenzo Valgrisi, 1561.

Tratado da Sphera com a Theorica do Sol e da Lua. E ho primeiro livro da Geographia de Claudio Ptolomeu Alexandrino. Tirados novamente do Latim em Lingoagem pello Doutor Pedro Nunes, Cosmographo del Rey dom João ho terceiro deste nome nosso Senhor. E acrescentados de muitas annotações e figuras per que mays facilmente se podem entender. Lisboa, Oficina de Germão Galhardo, 1537.

Referências e bibliografia

K. Müller, Claudii Ptolemaei Geographia, v. 1. Paris: Didot, 1883.

C.F.A. Nobbe, Claudii Ptolemaei Geographia, 2 v. Leipzig: Teubner, 1843-1845.

s consulte também a bibliografia geral da área