logo

A contagem do tempo

Área: a grécia antiga  |  2520 palavras
 
Jesus Cristo (n. -7/-6, m. 29/30)

Os diversos sistemas de divisão e contagem do tempo, fundamentados em maior ou menor grau no movimento aparente dos astros, são chamados de calendários.

O ciclo do Sol, o ciclo da Lua e o movimento da Terra em torno do sol são os fenômenos astronômicos mais importantes para a contagem do tempo.

A necessidade de contar o tempo surgiu antes mesmo da escrita, durante o Neolítico, quando os primeiros agricultores notaram a importância do exato conhecimento das estações do ano para o sucesso de suas plantações. A partir daí, cada cultura desenvolveu seu próprio sistema, restrito a suas áreas de influência.

Para contar períodos de tempo superiores a um ano, as antigas civilizações usualmente utilizavam a duração de reinados (Egito), a sucessão de magistrados (Roma Republicana), a enumeração das gerações (Grécia Arcaica) ou então um fato memorável, por exemplo a fundação de Roma (Roma Imperial).

Esses antigos sistemas, empregados ainda muito tempo depois do advento do Cristianismo e após a queda do Império Romano do Ocidente, deram lugar ao moderno calendário há pouco mais de um milênio.

Unidades de tempo

O calendário vigente, estabelecido em 1582, incorporou unidades de tempo de diferentes origens históricas. A mais antiga divisão do tempo, o dia, definida pela alternância cíclica da luz solar e da escuridão da noite é, provavelmente, anterior a 8000 a.C.

Mais tarde surgiram os meses, definidos originalmente pelas fases da lua[1], e depois o ano, baseado no movimento aparente do sol e no ciclo das estações[2]. O mais antigo calendário solar foi desenvolvido no Egito por volta de 2773 a.C.

A divisão do mês em 4 semanas de 7 dias, invenção babilônica baseada em conceitos astrológicos e desenvolvida no século VII a.C., foi adotada pelos romanos na época do Império, provavelmente no século I d.C.

O calendário grego

Em épocas remotas o tempo era medido de forma muito simples, com base nas quatro estações do ano e em diversos outros fenômenos climáticos e astronômicos (ver Hesíodo, Trabalhos e Dias 381-93). Posteriormente, as póleis instituíram um calendário baseado nos meses lunares e no ano solar, ao qual davam o nome de alguma autoridade civil ou religiosa.

O início do ano e o nome dos meses variava de pólis para pólis e Tucídides, em sua História da Guerra do Peloponeso, dá uma ideia da complexidade desse sistema (2.2.1):

(...) τῶι δὲ πέμπτωι καὶ δεκάτωι ἔτει, ἐπὶ Χρυσίδος ἐν Ἄργει τότε πεντήκοντα δυοῖν δέοντα ἔτη ἱερωμένης καὶ Αἰνησίου ἐφόρου ἐν Σπάρτηι καὶ Πυθοδώρου ἔτι δύο μῆνας ἄρχοντος Ἀθηναίοις (...) ... no quadragésimo oitavo ano em que Crises era sacerdotiza em Argos, no eforato de Enésias em Esparta e quando Pitodoro tinha ainda dois meses de Arcontado em Atenas ...

O calendário mais conhecido é o ateniense ou “ático”. O ano ático tinha doze meses lunares, com número variável de dias, e durava apenas 354 dias. Periodicamente, acrescentava-se um mês intercalar de 30 dias, logo depois do mês Ποσεδειών, com o nome Ποσεδειών β', Posedeion II, totalizando então 384 dias. O ano começava no solstício de verão (julho, no calendário moderno)[3] e o mês, no primeiro dia da lua crescente. Não havia semanas, mas cada mês era dividido em 3 décadas de 9 ou 10 dias, conforme a duração do mês.

Eis um quadro dos meses lunares atenienses e sua correspondência aproximada com o calendário cristão de 2004-2005 (nesse ano não houve mês intercalar):

Nome Dias Início Fim
Ἑκατομβαιών 30 18-19 jul. 15-16 ago.
Μεταγειτνιών 30 16-17 ago. 14-15 set.
Βοηδρομιών 29 15-16 set. 13-14 out.
Πυανεψιών 30 14-15 out. 12-13 nov.
Μαιμακτηριών 29 13-14 nov. 11-12 dez.
Ποσεδειών 30 12-13 dez. 10-11 jan.
Γαμηλιών 29 11-12 jan. 08-09 fev.
Ἀνθεστηριών 30 09-10 fev. 10-11 mar.
Ἐλαφηβολιών 29 11-12 mar. 08-09 abr.
Μουνυχιών 30 09-10 abr. 08-09 mai.
Θαργηλιών 29 09-10 mai. 06-07 jun.
Σκιροφοριών 30 07-08 jun. 06-07 jul.

Por volta de -432 o astrônomo Meton de Atenas aumentou a precisão do sistema estabelecendo um ciclo de 19 anos, o ciclo metônico (gr. ἐννεακαιδεκαετηρίς). O mês suplementar era introduzido no 3º, 6º, 9º, 11º e 14º 17º e 19º ano do ciclo, o que reduziu a diferença a cerca de 1 hora, ou 1 dia a cada 310 anos, feito notável para os padrões da época. Os astrônomos Calipo (c. 330 a.C.) e Hiparco (190-126 a.C.) fizeram posteriormente correções no ciclo metônico, deixando-o cada vez mais exato.

No século IV a.C. os gregos tomaram como base comum da contagem do tempo os jogos olímpicos, disputados a cada quatro anos. O historiador Timeu (c. -345/–250), de acordo com listas de vencedores das provas atléticas, calculou que a primeira Olimpíada teria ocorrido no ano que nós, modernos, chamamos de 776 a.C. Esse é o primeiro ano da 1ª Olimpíada. A partir dessa data, o tempo era contado de acordo com o número da Olimpíada e com os anos subsequentes. A batalha de Salamina ocorreu, por exemplo, no 1º ano da 75ª Olimpíada; para nós, isso se deu entre julho de 480 a.C. e julho de 479 a.C.

Após a conquista romana, as póleis gregas adotaram o calendário juliano.

Calendário juliano / gregoriano

Os romanos utilizavam primitivamente um calendário lunar, com adição periódica de um mês suplementar para compensar o atraso em relação às estações do ano, dependentes do ano solar. O método, extremamente rudimentar, acumulou em 47 a.C. uma diferença de 80 dias, gerando enorme confusão na vida civil e religiosa.

No ano seguinte, 46 a.C., o ditador romano Júlio César (100-44 a.C.) instituiu o calendário juliano, conforme recomendações do astrônomo Sosígenes de Alexandria (sæc. I a.C.):

  1. o ano de 46 a.C. teve a duração prolongada: 445 dias;
  2. o ano passou a ser calculado em 365,25 dias;
  3. os doze meses passaram a ter duração diferente, quase igual à que têm até hoje;
  4. o primeiro dia do ano, antes situado em 15 de março, foi fixado em 1º de janeiro;
  5. a cada quatro anos, para compensar a fração anual excedente (0,25 dias), foi instituído o ano de 366 dias, chamado de ano bissexto até hoje.

Foi um trabalho soberbo para a época. No entanto, como outros calendários, havia ainda pequena defasagem entre o real número de dias do ano astronômico e os intervalos básicos de tempo (dias, meses, ano). A Terra completa uma revolução em torno do Sol a cada 365,2422 dias; como o ano havia sido fixado em 365,25 dias, essa pequena diferença foi se acumulando, e a cada 128 anos atingia 1 dia.

Durante a República Romana e também na época do Império Romano, contava-se o período anual conforme a sucessão dos cônsules[4] — e também Ab Vrbe Condita (AVC), isto é, ‘desde a fundação da cidade de Roma’. Bem mais tarde a referência passou a ser o ano 284 d.C., data da posse do Imperador romano Diocleciano (240-313 d.C.).

Em 1582 d.C., pouco mais de 1600 anos depois de sua instituição, tornou-se necessário um pequeno ajuste no calendário juliano, determinado pelo Papa Gregório III (1502-1585 d.C.) conforme as recomendações do astrônomo bávaro Christoph Clavius (1537-1612 d.C.):

  1. 10 dias do ano de 1582 foram suprimidos (o dia 4 de outubro foi seguido pelo dia 15 de outubro);
  2. os anos terminados em "00" e não divisíveis por 400 deixaram de ser considerados bissextos (1700, 1800 e 1900 d.C., não foram; 2000 d.C., foi).

O calendário juliano “corrigido”, chamado de gregoriano em homenagem ao Papa, também não é perfeito, pois há um excesso de 0,0003 dias em relação ao ano astronômico. A diferença, porém, é de apenas 1,13 dias a cada 4000 anos: novo ajuste será necessário somente em 5582 d.C., daqui a 3582 anos.

O tempo atômico

Em nossos dias, segue-se basicamente o calendário gregoriano, de certa forma apenas um aperfeiçoamento do calendário juliano de 46 a.C. O tempo é, no entanto, contado por relógios atômicos, baseados na emissão radiativa de átomos de césio 133, que erram apenas 1 segundo a cada 30.000 a 65.000 anos. Desde 1960 o padrão é o UTC (do francês temps universel coordonné, tempo coordenado universal), controlado por diversos laboratórios espalhados pelo mundo todo.

A cada 19 meses, em média, acrescenta-se 1 segundo ao UTC, pois a contagem do tempo deve acompanhar, em última análise, a duração da órbita da terra em torno de si mesma e do sol. O tempo também dá voltas... pois 19 anos é a duração do ciclo metônico descoberto em 432 a.C.

Era cristã, a.C. e d.C.

No ano da graça de 523, o monge católico Dionísio, o Pequeno, decidiu efetuar a contagem a partir do nascimento de Jesus Cristo. Calculou que o nascimento de Cristo havia ocorrido em 753 AVC, no dia 25 de dezembro, e fixou o início da “nova era” no dia 1º de janeiro do ano seguinte, o 754º da fundação de Roma.

O novo sistema cronológico não foi aceito de imediato, nem mesmo pela Igreja Católica. Finalmente admitido no século X d.C. pela Cúria romana, foi gradualmente adotado pelas nações cristãs, assim como o calendário gregoriano.

Devido à adoção do calendário gregoriano e da Era Cristã pela maioria das nações não cristãs a partir do século XIX d.C., muitos eruditos preferem empregar o termo “Era Comum” no lugar de “Era Cristã”.

Sabe-se hoje que Dionísio, o Pequeno, cometeu um pequeno erro de cálculo: Jesus Cristo, na verdade, nasceu pouco antes de 749 AVC, quatro a oito anos antes da data “oficial”. No entanto, por tradição, até hoje o ano 754 AVC continua sendo o “Ano 1” da Era Cristã.

Com a adoção quase universal do calendário gregoriano e da Era Cristã no Ocidente, os anos posteriores à data tradicional do nascimento de Cristo (assinalado com um X na Fig. 0028, infra) passaram a ser contados em ordem crescente e os anos anteriores, em ordem decrescente.

Fig. 0028. Linha do tempo.

É costume, principalmente entre os historiadores, utilizar as abreviações a.C., “antes de Cristo” e d.C., “depois de Cristo”, para especificar se a data se refere à Era Cristã ou ao período anterior. Os países de língua inglesa também utilizam, para a Era Cristã, a sigla AD[5] antes do número: AD 1997.

Eis mais alguns conceitos úteis:

  1. não existiu o “ano zero”; o dia 31 de dezembro de 1 a.C. foi seguido pelo dia 1º de janeiro de 1 d.C.
    Alguém nascido em março de 10 a.C. e morto em abril de 20 d.C. terá vivido, portanto, não 30 anos, e sim 29.
    Regra: 10 + 20 - 1 (subtrai-se, naturalmente, o inexistente ano zero).
  2. o século (lat. saeculum, abreviatura saec. ou sæc.) compreende um período de 100 anos e é habitualmente representado por um algarismo romano; como não houve ano zero, o último ano de cada século d.C. termina sempre em “00”, assim como o primeiro ano de cada século a.C. Por exemplo:
    sæc. II a.C. 200 a.C. - 101 a.C. sæc. I a.C. 100 a.C. - 1 a.C. sæc. I d.C. 1 d.C. - 100 d.C. sæc. II d.C. 101 d.C. - 200 d.C.
  3. o milênio compreende um período de 1000 anos e o primeiro e o último ano são calculados como no caso do século.
    Desse modo, o 2º milênio da Era Cristã termina em 31 de dezembro de 2000; o 3º milênio começou, portanto, em 1º de janeiro de 2001.

Convenções utilizadas no Portal

Adoto, em minhas páginas, uma variação do sistema usado pelos astrônomos para as datas anteriores à Era Cristã ou Era Comum: números negativos. Você encontrará o ano 753 a.C., por exemplo, escrito deste modo: -753.

Os matemáticos acham desnecessário colocar o sinal “+” quando utilizam números posivos; do mesmo modo, não utilizo a notação “d.C.” ou “AD” para datas posteriores à Era Cristã ou Comum. O ano 284 d.C., por exemplo, fica simplesmente assim: 284.

Algumas datas situadas na Pré-História são eventualmente referidas segundo a notação arqueológica “AP” (antes do presente, tradução do inglês “BP”, before present). O ponto de partida desse método é, convencionalmente, o ano 1950 de nossa Era. Assim, -46 é o mesmo que 1996 AP.

Para assinalar nascimentos, mortes ou apenas um intervalo de tempo, utilizo uma barra inclinada para a direita: “Júlio César (-100/-44)”; “Idade do Bronze, -3000/-1100”; etc. Quando as datas são um tanto imprecisas, costumo colocar uma única referência temporal: “Sosígenes de Alexandria (sæc. -I)”.

leia mais